Mitch Harris (Napalm Death) quebra o gelo da reclusão com o Brave The Cold. Leia entrevista!

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Por Homero Pivotto Jr.: O guitarrista Mitch Harris considera o Napalm Death não apenas uma banda, mas um estilo de vida, uma família. Um grupo de pessoas unido pela música e que estreitou laços por meio de realizações, desafios e sacrifício. Mas as circunstâncias da vida forçaram o músico conhecido por seus indefectíveis backing vocals berrados a dar um tempo do conjunto no qual entrou em 1990. Mesmo afirmando que o quarteto inglês é uma irmandade, Mitch precisou dedicar-se aqueles com quem realmente divide laços consanguíneos. Afastado desde 2014, perdeu pai e mãe em um intervalo de quatro anos. Agora, retorna com bravura ao universo da música extrema para apresentar o Brave the Cold, duo em que toca e grita sua arte ao mundo na companhia do baterista Dirk Verbeuren (Megadeth, Bent Sea e ex-Soilwork). O álbum de estreia da dupla, “Scarcity”, foi lançado neste 2 de outubro. Ouça aqui!

Escassez de criatividade nunca foi problema para Mitch. Sua reclusão musical deu-se mesmo por questões familiares. Tanto que, ainda em 2014, soltou “Impact Velocity”, debut do Menace — empreitada de sonoridade experimental, com guitarras pesadas, passagens progressivas e clima industrial (este último, gênero com o qual Mitch já flertou muito bem, e de maneira mais crua e pesada, no Meathook Seed). No meio do caminho, ele ainda compôs e gravou “Apex Predator – Easy Meat” (2015) com o Napalm.

O retorno pouco provável em meio a um 2020 pandêmico vem com a fúria de quem precisa se expressar por meio daquilo que muitos consideram barulho. “Scarcity” retoma a veia death metal do Righteous Pigs (conjunto no qual Mitch era integrante antes do Napalm) agregando referências do thrash e do hardcore, além de uma interessante dinâmica de vozes (do melódico à la Fear Factory ao gritado em esquema Tom G. Warrior). Toques de experimentalismo para não cair na mesmice ajudam a deixar o trabalho envolvente. É sonoridade old school trabalhada em produção contemporânea, destacando o amadurecimento de quem sabe aproveitar a diversidade que há no cenário extremo da música.

Trocamos uma ideia com Mitch, por e-mail, sobre o Brave the Cold, sua situação com o Napalm, influências e como fazer som ajuda a manter a sanidade.

Você meio que se afastou dos holofotes da mídia. Poderia nos contar o que tem feito desde que decidiu não se envolver mais totalmente com o Napalm Death? Qual é a sua contribuição no álbum mais recente da banda, “Throes of Joys in the Jaws of Defeatism”? 

Mitch Harris — Toquei guitarra no “Throes…”, mas não contribuí com nenhuma composição. Fiz isso porque tenho orgulho do nosso legado. Eu queria ajudar meus amigos durante uma transição e dar algo em troca à comunidade que acreditou na gente por tantos anos. 

Me afastei porque tive de voltar para casa e ajudar minha família. Perdi meus pais em um período de quatro anos e a vida nunca mais será a mesma. Eu estava lá quando importava. Não me arrependo. Estou feliz e ainda há muito a conquistar em nível pessoal, quer o mundo se importe ou não. É algo que devo fazer e agradeço seu apoio em espalhar a palavra.

Como surgiu o Brave the Cold? É um projeto novo idealizado recentemente ou uma ideia antiga materializada apenas agora? Você e Dirk são amigos antigos?

Mitch Harris — Somos amigos e fãs um do trabalho do outro há tempos. Eu não chamaria de projeto. Para mim é a estreia desse duo. Coloco o mesmo montante de energia em cada álbum, cada banda em que estou envolvido. No BTC talvez tenha sido até mais.

As músicas estavam prontas quando a pandemia assolou o mundo? Se não, como foi o processo de criação e também o de gravação — considerando que vivemos tempos de distanciamento social?

Mitch Harris — Falamos sobre gravar há uns três anos. Enviei ao Dirk cerca de 40 sons. Ele curtiu e ficou ansioso para escolher umas 12 faixas. Então, gravamos “Scarcity” há dois anos. Finalmente encontramos uma gravadora com visão e time que acreditou na gente, a Mission Two Entertainment — ex-Victory Records, de Chicago. Tempos divertidos! 

E sobre o direcionamento musical do BTC, foi algo intencional? Pelo menos baseado na primeira faixa lançada como single, ‘Hallmark Of Tyranny’, trata-se de um death metal com elementos de hardcore e thrash?

Mitch Harris — Amamos várias bandas desde o final dos anos 1980 até os tempos modernos. Nada foi intencional. Foi tudo espontâneo, principalmente na escrita. Rolou um processo muito natural e nunca tínhamos certeza de como seria. Isso é o que tornou tudo tão emocionante e espero que as pessoas também vejam dessa forma.

O Brave the Cold é uma banda que pretende sair em turnê quando for possível ou está mais para um projeto de estúdio?

Mitch Harris — Sempre começa no estúdio. Se houver demanda ou interesse, tudo é possível, de acordo com o cronograma do Dirk ou adaptando a narrativa conforme necessário. Mas nunca poderia ser o mesmo sem ele.

Li que o Brave the Cold é para ser “um resultado positivo de esforços criativos que inspiram mudanças. A inspiração por meio da arte é essencial em nosso mundo, com nossa necessidade de interação social, adaptação, individualismo e transformação pessoal”. Fazer arte é algo vital para você? Como a arte (música, nesse caso) afeta sua rotina e seu humor?

Mitch Harris — Para algumas pessoas é só barulho. Para mim é arte e liberdade de expressão, poder ultrapassar os limites de sonoridade e de temas. A música sempre foi uma grande parte da minha vida. Isso me mantém sadio e encoraja outros a também expandir pensamentos combinando culturas sem barreiras em sua própria linguagem visual.

O release oficial do BTC afirma: “O tema de “Scarcity” é um debate cênico bem pesquisado que combina visões distópicas que vão desde antielite, antimídia, antidivisão, antiopressão, fim da filosofia dos dias e poesia pós-apocalíptica”. Como o conceito do álbum se desenvolveu? Podemos dizer que são suas impressões do mundo em que vivemos hoje?

Mitch Harris — Meus esforços musicais e, principalmente, as letras sempre tiveram como base eventos atuais, situações da vida real. Tipo: opressão, depressão, ansiedade, positividade, negatividade, causa e efeito, evolução, paisagens de transição que desafiam o processo de pensamento. “Scarcity” pega uma abordagem profética distópica pós-apocalíptica. Talvez seja como outro jornal no qual tudo deu errado para a humanidade em uma escala global de agendas de massa.

Existem riffs que lembram ‘Purity Dilution’, do Defecation, e alguns vocais mais parecidos com seu trabalho no Menace. Essa é minha impressão, ao menos.

Mitch Harris — Eu diria que existem elementos de todos os meus trabalhos anteriores combinados com algo novo. Claro, Defecation, Napalm Death, Righteous Pigs e Meathook Seed são referências. Está tudo colocado inconscientemente. Existem partes que lembram Menace, talvez. Mas isso também é uma dinâmica para eu manter as coisas interessantes, imprevisíveis e conflituosas.

A propósito: alguma chance de você e Mick (Harris, ex-colega de Mitch no Napalm e na dupla Defecation) se reunirem para fazer outro álbum do Defecation? Devo dizer que “Purity Dilution” é um dos meus discos favoritos de todos os tempos.

Mitch Harris — É muito pouco provável, pois estou em algo novo. Mas nunca digo nunca. Fico feliz que “Purity Dilution” tem um lugar especial em seu coração mesmo tendo sido lançado tantas luas atrás.

Falando sobre suas outras bandas: como está o Menace atualmente? E há alguma possibilidade de um retorno com Righteous Pigs ou Meathook Seed, por exemplo?

Mitch Harris — Novamente, é muito improvável. Por que o BTC toma toda minha atenção para objetivos futuros. Essas outras bandas também significaram dias dourados. Eram um estado de espírito impossível de recriar com a mesma energia hoje, não importa o quanto tentemos. Eu não acredito em forçar música ou ideologia.

Creio na evolução e em períodos de transição que “capturaram o momento”, como diários de vida do passado glorioso. Estou mais preocupado com o futuro. Talvez o Menace faça algo se houver demanda, mas eu prefiro levar essa abordagem melódica mais adiante em outros projetos. Isso apenas confundiria as pessoas mais e criaria limitações baseadas em falsas expectativas.

Você se importa em contar o que te fez decidir não excursionar com o Napalm? Como é sua relação com os caras e sua posição na banda hoje em dia?

Mitch Harris —  Respondi anteriormente. Estamos ligados por toda a vida por meio de nossa experiência e esforços. É uma irmandade, uma família, uma vida, um estilo de vida com altos e baixos, progresso, inovação, desafios, sacrifício, ambição, sucessos e fracassos. Uma tremenda jornada tem sido. O ND durou mais tempo que a maioria dos casamentos e é sobre ajudar uns aos outros, apoio mútuo e espalhar nossa mensagem para o mundo desavisado.

Para finalizar: por favor, liste um disco antigo e outro mais contemporâneo que tenham influenciado “Scarcity” e nos diga por quê?

Mitch Harris — Celtic Frost (“To Mega Therion”) e Cryptic Slaughter (“Convicted”) entre outros tantos que fazem parte do nosso DNA. 

Celtic Frost foi o mais pesado dos pesados e Cryptic a primeira banda a quebrar a barreira da velocidade. Existem poucas influências contemporâneas além de algo do Menace ou do Meathook Seed em alguns momentos. Isso apenas como resultado da evolução, expandindo as limitações e expectativas na música extrema.