A mistura de caos e desdém ao mainstream de João Pedro Oliveira do Sangue de Bode

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Dono de um vocal e baixo cru o, denso e intrigante, João segue fazendo história com a banda Sangue de Bode ao apresentar a cena extrema uma banda sem rótulos, extremamente pesada e que prospera com uma mistura de caos e desdém ao mainstream. O power-trio se destaca cada vez mais dentro do metal pesado por apresentar um som sem rédeas na língua, com pegada experimental e que vai direto ao ponto.
João é um dos pilares para a formação do Sangue de Bode e peça fundamental desse ritual caracterizado por sons caóticos, vocais emocionais e sentimento de rebelião.

A banda chega em um momento que precisamos de algo e alguém para dizer foda-se a tudo isso; a manipulação da mídia, corrupção no meio político, violações constitucionais e política fascista.
João e o Sangue de Bode seguem fazendo algo diferente, que desafia os limites da música extrema, criando um novo lugar para metal e dando aos fãs desse gênero musical algo novo e necessário para essa mudança que tanto precisamos.

Conversamos com o músico sobre trajetória, influências musicais, processo de composição e outras curiosidade. Confira.

Você e o sangue de bode apresentam uma sintonia e harmonia sonora fora do comum. Como funciona a parceria de vocês como músicos e amigos dentro do projeto?
Po, primeiramente obrigado a todo mundo que curte a sintonia da banda! E assim, uma coisa boa do nosso trabalho é que a gente é realmente amigo, no dia a dia e tal, a amizade já vem antes de todas as outras paradas o que ajuda muito. Como músicos apesar da individualidade de cada um obviamente pelo fato de que cada pessoa é uma pessoa, a amizade da galera também da mais um grau na nossa conexão de banda, porque fora peculiaridades pessoais de cada um, os 3 dividem muitas afinidades e gostos, principalmente o de curtir som. A gente curte o mesmo rolê, e basicamente as mesmas idiotices. Fora todos os outros amigos envolvidos né? Não fazemos nada sozinhos.

Dentro do cenário da música extrema brasileira, você costuma acompanhar bandas com trabalho autoral? E sobre as estrangeiras, alguma atual que tenha lhe chamado a atenção?
Com certeza acompanho. Algumas já se tornaram cativas tipo o Desalmado e o Manger Cadavre? que são bandas que eu escuto direto, fora tantas outras. Nem só na música extrema mas até em outras vertentes, tipo esses dias ouvi um som aleatoriamente de uma banda chamada menores atos que achei massa e salvei. Curto muito a faixa “O Novo” do Medulla apesar de não ser tão nova e por aí vai. Minha playslist é uma zona. Tudo que eu curto eu jogo misturado e tem muita coisa de muito gênero. Das bandas gringas, bem, que me venha à mente aqui agora, algumas recentes que me chamaram a atenção e me peguei ouvindo foram Gruesome por exemplo, algumas coisas do Cancer Bats, Cattle Decapitation. Sei lá, quando para pra pensar fica dificil lembrar tantas hahah. Mas claro que também sou dividido com aquele lado saudosista das coisas da vida que nunca saem do play tipo Kiss, Megadeth, Krisiun e toda a minha escola.

Que dica você daria a músicos brasileiros do metal extremo, amadores ou profissionais, que tem medo de experimentar e inventar coisas novas em suas músicas?
Bom, se isso for uma dica, que faça a parada por amor antes de tudo. Tem que sentir que é de verdade, tem que ser sincerão. E sei lá, pelo menos pra mim, que não faça a parada com objetivo de ser rico um dia cagando goma porque isso não vai acontecer e a ideia aqui é outra. Metal é uma parada bem pessoal, quem curte curte de verdade a parada, então se você faz com sinceridade sempre vai haver uma razão pra levar seu som pra frente porque ele vai te bastar. Não faça da sua arte e da sua expressão um caminho para um motivo x. Faça ela simplesmente ser o motivo. E sobre inventar, se re-inventar e experimentar, pra mim quem não faz isso já tá morto. Qual é o intuito disso tudo se não estar sempre buscando novas formas? A parada é sempre tentar espremer do vazio o que você realmente acha que fala por você naquele momento, não importa a forma. Se não significar algo pra você, provavelmente não vai significar pra mais ninguém. Essa é a minha opinião né, se faz sentido aí já não sei.

Qual modelo de baixo, cordas e amplificadores você usa? Conta pra gente a relação de amor com seu instrumento.
Meu baixo é um Ibanez GSR 390WN. Eu sou muito satisfeito com ele até pelo seguinte. Eu não sou baixista na real. Sou guitarrista tocando baixo, por uma questões comodidade pra mantermos a banda em trio pelo menos por hora, facilita a logística. Esse baixo tem um braço bem fino e muito confortável pra tocar, especialmente quando se toca guitarra no dia a dia. Pra ser sincero eu sou bem vagabundo cara, não entendo sobre modelos e cordas e amps e etc. Me contento com pouco, pra mim o instrumento ligou eu já tô mais Que satisfeito. Na guitarra também, sou daqueles que 90% das vezes usa o drive da caixa feliz feito pinto no lixo hahah. O amp que eu costumo usar é um Hartke (não me pergunte especificações) que foi inclusive usado pra gravar o disco. Mas não é meu hahahaha. E é isso cara, qualquer faísca é fogo!

Quais são as suas maiores influências musicais? Pra você qual é o maior baixista e vocalista de todos os tempos?
Não posso negar que o primeiro nome que me veio na mente foi o David Vincent do Morbid Angel, mas fora tantos outros como O Alex do Krisiun, Tom Araya, pra mim também o Gene Simmons (Sou muito fã de Kiss). Mas como eu citei antes eu não sou originalmente baixista, então a minha referência geral não vem totalmente nem exclusivamente de baixistas em si. Como front por exemplo eu admiro muitos caras dentre eles fatalmente O Max Cavalera, o Atilla no Mayhem, Chino Moreno no Deftones e em qualquer coisa que faz, João Gordo, e tantas outras personalidades que com certeza eu tomo como referência. Ideologias à parte eu também sou absurdamente fã do Dave Mustaine e de todo o trabalho do Megadeth, na minha vibe Grindcore a referencia total já é o Nasum, Brutal Truth. Eu amo Kreator. É cara, da pra ficar 5 dias falando isso aqui hahaha.

Suas linhas de baixo funcionam como uma chave para o som da banda, apresentando uma interação e ligação profunda com a construção da música. Você sempre crias suas linhas pensando assim ou elas acabam saindo naturalmente desse jeito?
Acho que um pouco de cada. Eu e o Gabriel (batera) convivemos bastante no dia a dia, tipo 5 dias na semana, a gente troca muita ideia e ouve muita coisa junto e tal. Como eu no caso tô tocando baixo na banda, a gente naturalmente já tem aquele pensamento parecido na hora de sintonizar a cozinha de forma legal. Isso juntamente com prestar atenção em cada detalhe dos grooves na hora de gravar pra sempre encaixar cada bumbo da batera sincronizado com o baixo porque isso da um swing bem legal em qualquer som. Mas aquilo, nunca com mentalidade de baixista em si pra ser sincero. Eu sou guitarrista que toca baixo, isso talvez influencie um pouco no produto final de como o baixo da banda soa no fim das contas, mas eu curto. E ainda sobre criar as linhas do baixo, 100% das vezes eu crio, invento e pratico todos os riffs e novas ideias na guitarra. Geralmente eu só defino o que realmente o baixo vai fazer quando a gente ensaia a parada junto, isso porque provavelmente vou re-inventar tudo quando chegar a hora de gravar. Então não é nada muito pragmático.

Como a música surgiu em sua vida?
Ah, surgiu desde sempre. Mas com um grande pontapé totalmente essencial do meu tio. Ele me apresentou o rock desde o início da vida. Na minha memória ou gravação de família mais antiga eu tô ouvindo Kiss ou Marillion na vitrola. Mas conforme fui ficando mais velho só fui descobrindo cada vez mais o quão podre e extremo o gosto musical dele poderia ser hahah. Passei por toda aquela escola clássica e unânime do Black Sabbath, Motorhead, Pantera e etc. Mas depois que meu tio me apresentou o Metal Extremo foi um caminho sem volta. Com certeza foi tudo isso que me levou a querer tocar guitarra e fazer um som desde pequeno, apesar de só ter começado com 13 pra 14 anos. Ace Frehley foi sem dúvidas um dos maiores motivos. Então devo muito ao meu tio isso, mas também tem o lado pessoal, as coisas e gêneros que descobri por conta própria em outras experiências, adolescência, amigos. Eu curto muito coisas Pop que são bem feitas. Adoro Refrãos geniais e músicas melódicas. Reggae é outro gênero que eu amo de paixão e ouço todos os dias. E é isso. Nunca me imaginei sem música e vai ser sempre assim. Sou grato por ao menos até hoje conseguir me virar na vida através dela das formas que aparecem e vamo que vamo.

Tem algum momento na história do Sangue de Bode que você ache que foi o melhor?
Essa é fácil. O melhor momento da banda até hoje foi nosso último encontro/ensaio basicamente 2 semanas antes da pandemia. Esse dia foi louco, fora o ensaio. O role foi absurdo, muito divertido e muito produtivo e etc e tal…Viramos a noite numa vibe louca ouvindo som e conectados pra caralho. Foi muito foda mesmo e tenho certeza que eles vão concordar hahahah. Um dia simples, comum, mas foi o suficiente. Só quem tava lá tá ligado hahahahha.

Qual a sua faixa favorita do novo disco do Sangue de Bode?
Não sei responder essa pergunta. O disco é muito pessoal pra mim, principalmente pelo lado das letras que eu escrevi, então é impossível. É como escolher se deixa seu filho sem braço ou sem perna. Você gosta dele inteiro né? Hahaha. Pra mim esse disco é o conjunto da parada. A história do título em vários temas ao longo das faixas. Realmente não dá pra escolher. Significam muito pra mim, todas.

Confira aqui o disco “A sombra que me acompanhava era a mesma do Diabo”: https://bit.ly/2vKa1es