Review e fotos: The Hellacopters em São Paulo (14/03/2020)

Texto por Wlad Cruz | Fotos por Flavio Santiago – www.onstage.mus.br

O rock é feito de clichês – no melhor sentido da palavra. E é atemporal.
O Hellacopters é uma bela colcha de retalho de alguns dos melhores clichês que formam o rock. Ao vivo isso fica ainda mais claro. Cada vez que Nicke Andersson levanta sua guitarra, que Dregen faz pose com cigarro na boca a lá Keith Richards, o visual setentista do baterista Robert Eriksson e do tecladista Anders Lindström, que solos são executados com os músicos ajoelhados no chão em ode a seus instrumentos etc, esses chavões mostram sua força, se perpetuam, e constroem juntos uma das melhores performances de rock que você poderá ver neste 2020.
Não importa se o set-list é composto apenas pelas (excelentes) canções dos discos antigos, repito, o rock é atemporal. Não precisa de novidade, não soa como tour bate-carteira. Esse show funcionaria bem e seria excelente em 2003, nos anos 1970, assim como o é hoje.
Tudo isso é dito para esmiuçar o que pode ser resumido com mais um clichê: o show do Hellacopters é um show de rock. Daqueles que importam ser vistos, pois são uma aula de como se fazer a coisa toda.
Divertido, alto, técnicamente redondo – sem perder uma gota do feeling. Na bagagem tem hits radiofônicos, canções pesadas, power-ballads e até snippet de uma influência clássica – tocaram trecho de “Pretty Vacants” dos Sex Pistols em ponte de “Born Broke”.
O bloco inicial composto por “Hopeless Case of a Kid in Denial”, “Alright Already Now”, “Carry Me Home” e “You Are Nothin'” já mostrou que o set seria abrangente, passeando por toda sua discografia. Dregen, guitarrista original do grupo, mostrou que é realmente o dono do posto, reproduzindo com maestria os solos e riffs que era cargo de seu antigo e finado substituto, o guitarrista Strings. Isso fica claro, por exemplo, em “The Devil Stole the Beat From the Lord”, ou no maior hit do grupo, “Toys And Flavors” que aparece bem na metade do set, iniciando a segunda parte da apresentação.
Como highlight essa segunda metade do show tivemos “No Song Unheard”, “Psyched Out & Furious”, e a dobradinha que encerrou o tempo regulamentar, “Soulseller” e “By the Grace of God”.
Para o bis, Nicke entrou no palco segurando uma cerveja Corona, provando a teoria dos clichês – rebeldia, humor, sarcasmo – e mandando a arrastada “Tab” do disco “supershitty to the max!”, seguida de duas favoritas dos fãs, “I’m in the Band” e “(Gotta Get Some Action) Now!”.
Público e banda suada, em êxtase, mais um show de rock completo com sucesso. Daqueles de lavar a alma e sujar a roupa.
Ah, e vale citar que tivemos ainda duas bandas de abertura antes dos Hellacopters iniciarem seu vôo. Primeiro o grupo Urutu – do qual não pude conferir a apresentação, e o Corazones Muertos, conjunto paulistano que há alguns anos vem segurando a bandeira de “Don’t kill rock n’ roll”, fazendo um glam-punk com ares de blank generation – ou seja, mais um banho de bons clichês. Em seu set, além das autorais, covers e versões de Ramones, Johnny Thunders e da ‘levanta poeira’ “I Fought The Law”, em versão próxima da feita pelo The Clash.
Show de rock perfeito, dos melhores que veremos este ano. Como aquele slogan de bolacha prega, funciona porque é clichê, e é clichê porque funciona.