Resenha e fotos: Black Flag em São Paulo

Review por Wlad Cruz | Fotos por Daniel Silva

08/03/2020 – Carioca Club – São Paulo/SP

Muita gente questionou a veracidade deste Black Flag que veio pela primeira vez ao Brasil. “Black Flag”, entre aspas escreveram alguns. Outros afirmavam que o FLAG – grupo que reune uma porção de ex-membros do grupo sob o comando de Keith Morris – é o verdade Black Flag atual. E mais um monte ainda nem sabia que o Henry Rollins havia deixado o grupo há mais de três décadas, tendo como únicas referências o clipe de “TV Party” e o álbum “Damaged”.

E esse talvez seja um ponto interessante a se falar. Se por um lado o logotipo do Black Flag é das imagens mais icônicas do punk, adornando jaquetas, tatuagens e camisetas por ai, por outro é notório que muitas pessoas conhecem muito pouco da música da banda, remetendo seu repertório somente ao supracitado disco de 1981, ignorando as aventuras musicais por onde o conjunto passeou nos anos seguintes e acabou por influenciar uma porção de nomes fora do punk inclusive.

O tal Black Flag que chegou a terras brasílis segue ipsis litteris a carreira construída nos anos 1980, ou seja, um vocalista raivoso no posto da frete e um repertório que viaja pelos delírios atonais do guitarrista e mentor Greg Ginn. Nesse sentido, este sim era o tal “Black Flag de verdade” – isso sem falar obviamente nas questões legais e de composição que deixam claro que sim, o Black Flag é a banda de Ginn e quem mais ele colocar na garupa.

E quem está de carona nessa é o skatista Mike Vallely, que já trabalhou musicalmente com Ginn no excelente Good For You, além de ter sua carreira com o interessante Mike V & The Rats. Vallely faz o tipo ‘nervosão’, seguindo o estilo de Rollins de cantar, e não ficou devendo em nada em sua performance, pelo contrário, consegue a seu modo reproduzir aquela tensão de perigo e intensidade que Rollins tinha nas antigas fitas da Target Video.

É claro, não é a mesma coisa. Nem dá pra ser. E talvez a idéia nem seja essa mesmo. Apesar do repertório ter canções de 40 anos de idade, a história musical do Black Flag sempre foi mirada pra frente, tendo inclusive lançado um disco (mediano) de inéditas em 2013, sendo que poderia muito bem manter-se só como uma banda de flashback.

Em cena, o quarteto completo por Joseph Noval (baixo) e Isaias Gil (bateria), entregaram pouco mais de uma hora do que se espera desta trupe. O hardcore punk raivoso de clássicos como “Depression”, “Fix Me”, “Gimmie Gimmie Gimmie”, “Six Pack”, se misturavam com o delírio cacofônico de sons como “Slip it In” e “Retired At 21”, só pra citar dois dos momentos mais ‘tortos’ musicalmente do show. Esse lado mais heavy e psych do Black Flag inclusive é citado como influência por muitas bandas da atual cena stoner, e até por gigantes do mainstream – veja como Dave Grohl conta no doc “Filmage” que se inspirou na abertura de “Slip It In” para compor a abertura de “Song For The Dead” do Queens of The Stone Age.

Os quinze minutos finais do show paulistano, que seguiu o mesmo set-list de demais apresentações recentes do grupo, foi com a sequência avassaladora de “Nervous Breakdown”, “TV Party”, “Rise Above” e a já clássica versão extendida de “Louie Louie”, com longo solo noisy de Ginn.

O guitarrista e também dono do selo SST, conhecido por ser uma pessoa de difícil tratamento – e que inclusive ganhou gigante antipatia por parte do público devido a matéria de 2014 sobre uma suposta relação abusiva com seus filhos – nesta noite, ao menos perante os fãs, se mostrou gentil e simpático. Agradecendo e cumprimentando o público diversas vezes, inclusive indo atender o público e autografando itens após o término do show.

Com formação X ou Y, de verdade ou não, o fato é que o grupo fez em SP o que realmente importa: música rebelde, desafiadora, fora dos padrões do próprio punk.

Que a bandeira negra siga em riste, pois seu símbolo – iconográfico e ideológico – há de ser maior que discussões de botequim.