Entrevista: The Hellacopters fala com o ZP 17 anos depois

Em 2003 o The Hellacopters veio ao Brasil para shows dentro de um festival intitulado Kaiser Music, sendo opening act de um lineup que contava ainda com Sepultura e Deep Purple.
Praticamente ignorados pela grande mídia que os desconhecia – exceto um aqui e outro acolá por conta dos clipes em rotação na MTV Brasil – o grupo caçou seu público ‘na unha’, a cada show, conquistando o público no palco.
Na época participamos da entrevista coletiva do grupo em um hotel chique da região dos Jardins de São Paulo, e depois batemos um papo exclusivo com alguns de seus integrantes, entre eles seu líder, Nicke Andersson, e o guitarrista Robert “Strings” Dahlqvist, falecido em 2017 após um acidente doméstico.
Em São Paulo a banda tocou, deu um rolê pela noite e levou consigo a esperança de um dia retornarem para shows menores. O que não aconteceu, até este ano.
Agora dezessete anos depois, o grupo está de malas prontas para retornar ao país, trazendo na bagagem seu guitarrista original, o Dregen guitarrista também dos Backyard Babies, e o show construído desde sua reunião em 2017.
Longe da super-produção de outrora, mas focados exclusivamente em seu público, o Hellacopters é seguramente um dos shows mais aguardados do ano por estes lados.
Batemos novamente um papo com Nicke Andersson, vocalista e guitarrista do grupo, porém desta vez por e-mail, relembrando aquele distante 2003 e olhando pro presente. Participa também do papo o supracitado Dregen, também já entrevistado por nós em um distante ano de 2001, época de sua primeira tour por aqui com os Backyard Babies, mas ai é outra história.
Suecos de nascimento, roqueiros pela graça de deus, com a palavra, os Hellacopters:

Em entrevista que fizemos em 2003, a cena escandinava de rock estava em seu auge de popularidade por estes lados. Na época, perguntei a vocês se achavam se alguma das bandas em evidência naquele momento criariam algum legado. Nicke respondeu em tom de brincadeira que o Hellacopters seria esta banda. Kenny, baixista do grupo, complementou citando o The Hives e o Soundtrack Of Our Lives. Agora, 17 anos depois, o que ficou dessa cena de rock escandinavo? Muita coisa mudou por lá, bandas acabaram, retornaram, mudaram de formação, e no final das contas, acha que o Hellacopters deixou um legado?
Nicke:
Eu não acho que devemos dizer se deixamos um legado ou não, mas devemos ter deixado algo, já que as pessoas parecem interessadas e curtindo nossos shows ainda. O que é extremamente lisonjeiro, e se realmente deixamos algum tipo de legado para algumas pessoas, então somos obrigados a cuidar disso da melhor maneira possível.

Nesta última década talvez o grande nome a surgir do cenário sueco tenha sido o Ghost. Assim como o Hellacopters e o Backyard Babies naquele momento, acredita que o Ghost tenha dado nova visibilidade a este cenário? Houve uma renovação de publico e bandas por lá? Ou enxerga um envelhecimento do publico como um todo? Aqui no Brasil a quantidade de jovens ouvindo rock é cada vez menor, e a faixa etária nos shows só aumenta…
Nicke:
Eu não sei sobre isso. Eu tenho o maior respeito pelo Ghost, mas me parece que eles são tão diferentes de nós e das bandas escandinavas das quais você se refere. Eu tenho a sensação de que a maioria dos fãs do Ghost não se importa ou sabe que eles são de Suécia. Existe uma renovação total do público por aqui. Se nosso público consistisse em apenas fãs “envelhecidos”, não poderíamos tocar nesse nível em que estamos hoje. Acredito que metade das pessoas que vão aos nossos shows hoje em dia mal haviam nascido antes de jogarmos a toalha em 2008. O que é fantástico, é claro, e eu gostaria que fosse o mesmo por ai também.

Durante o hiato do Hellacopters, Nicke fez outros projetos com boa repercussão, como o Imperial State Electric e mais recentemente o Lucifer, que está com ótima reputação. Qual o papel do Hellacopters hoje na sua vida musical? Seu projeto principal? Ou um passatempo? tudo convive junto no mesmo status?
Nicke:
Só posso falar por mim, mas não gosto de chamar nenhum dos meus empreendimentos musicais como projeto ou um hobby. Faço tudo o que faço dando cem por cento. Pelo menos quando eu faço isso, haha. Eu só queria ter mais tempo em minhas mãos para poder tocar em mais bandas e gravar mais álbuns.

E qual a condição atual da produção de material novo do Hellacopters?
Nicke:
Todos na banda estão muito ocupados, não apenas eu, então quando o tempo permite e as estrelas se alinham, nos reunimos e gravamos coisas. Temos cerca de seis músicas ou mais com sua base já gravada. Não estamos com pressa, só queremos que seja bom e se compare a nossos álbuns anteriores.

E como o Dregen se encaixa nesse processo? Ele volta a compor com a banda também?
Nicke:
Até agora foram em minhas composições que trabalhamos. Mas vamos ver.

Hellacopters em São Paulo, 2003, por Wladimyr Cruz

Como falamos, o Hellacopters esteve no Brasil em 2003, para shows em estádio ao lado do Deep Purple e Sepultura. Quais as lembranças desse show e desses dias por aqui?
Nicke:
Lembro que os shows foram incríveis e a reação do público foi muito modesta. Fomos muito bem tratados por todos – fãs, promotores, Deep Purple e Sepultura. Infelizmente, um dos quatro shows foi cancelado, mas não me lembro por quê. Minha melhor lembrança é quando o (finado guitarrista) Strings fez uma aparição com o Deep Purple tocando “Smoke On The Water”. Ele fez a famosa pose do (Richie) Blackmore no palco e deixou a gente e os caras do Purple rindo muito. Bons tempos. Eu sinto muita falta dele.

(para Dregen) Você esteve no Brasil com o Backyard Babies por duas vezes, e recentemente estava em tour com eles pelo Reino Unido ao lado do The Wildhearts. Como você ‘muda a chave’/foco, existe o Dregen do Backyard Babies e do Hellcopters ou entende que é a mesma coisa? E quais suas lembranças por aqui com os Babies?
Dregen:
Eu sou a mesma pessoa nas duas bandas. Haha – e eu sou muito grato por isso. Seria difícil ter que “mudar de personalidade” como Clark Kent e Superman. Há uma pequena diferença musicalmente. No Backyard Babies, sou o guitarrista principal, mas no The Hellacopters somos dois guitarristas de certa forma. Eu amo isso. Eu amo tocar guitarra rítmica também. E os Hellacopters podem ser um pouco mais “soltos e improvisado” em comparação aos Backyard Babies. Você tem que estar um pouco mais preparado pro inesperado no Hellacopters. Eu amo isso também! Qualquer coisa pode acontecer. Minhas lembranças do Brasil são apenas coisas boas. Ótimo público. Ótima vibração. Boa comida e bons momentos! Te vejo em breve!

E o que podemos esperar deste show no Brasil? Vi que o set-list está com mais de 20 músicas, todos os hits. É por ai?
Nicke:
Bem, depende de como você define “hits”, eu acho. Será uma mistura de músicas de todos álbuns.

Bom, isso é um hit dos Hellacopters: