Alvaro Dutra (Dissônicos, Pulso) lança EP solo, “Começo”

Foto por Bianca Martim

Release por Leo Werneck

Alvaro Dutra não é Billie Eilish. Ele não vai sussurrar letras assustadoras nem ameaçar seduzir seu pai. E “Começo” dificilmente vai ser eleito o lançamento do ano por algum YouTuber famoso. Parece algo óbvio, mas é importante ter isso em mente ao ouvir o primeiro EP solo do artista brasiliense, agora radicado em São Paulo. O trabalho não tem a intenção de emular as últimas tendências da música pop ou apelar aos ouvidos de adolescentes que descobrem suas músicas favoritas do mês no Tik Tok.

Ao contrário, “Começo” é calcado na vivência, em reflexões que só uma vida cheia de experiências pode proporcionar. Nesse sentido, foi criado para ser ouvido com calma e atenção, mesmo que seja breve, composto por apenas três músicas relativamente curtas, mantendo-se fiel às raízes punk rock do artista.

Mas apesar dos pés fincados no punk, o EP tem outras referências musicais mais predominantes. Principalmente folk, country, rock clássico e BRock. Alvaro cita como inspiração Kimya Dawson, Frank Turner, Bruce Springsteen, Pat the Bunny e Wander Wildner, entre outros. Também é possível ouvir influências de Bob Dylan e Renato Russo, além do storytelling de escritores beatnik.

Para organizar tudo isso, ele trabalhou com amigos e conhecidos de longa data. O EP foi inteiramente feito no 1234 Recording Studio, gravado e produzido por Pedro Tavares, que já tinha desempenhado o papel em 2017, durante a criação do EP “Indisciplinável”, do Dissonicos, última banda de punk rock fundada pelo músico e atualmente em hiato. “Pegamos horários vagos, fomos gravando aos poucos, sem pressa alguma”, diz Alvaro.

Além das escrever as músicas, o artista gravou todos os violões, baixos, vozes e backing vocals. Marcelo Melo (Os Gatunos, ex-Trezeromeia) contribuiu com as baterias das três canções.

Na primeira música, “Não quero nada”, Fabrício Paçoca (Os Gatunos) tocou banjo e guitarra, que fortalecem a atmosfera country da composição. Em “Uma Só”, na qual as influências de Bruce Springsteen ficam mais evidentes, a musicista Isadora Pina colaborou com uma linha precisa de saxofone e os arranjos de teclado foram contribuições de Rafael Farret (ex-Bois de Gerião). Já “Adeus”, que Alvaro classifica como a composição mais fora da curva do EP, conta com teclados sentimentais de Alexandre Perotto (ex-Jack Fluster) para acompanhar a melodia vocal que se repete e aumenta de intensidade a cada volta.

Um novo começo

Como o título sugere, o EP é o começo de uma nova empreitada para Alvaro. Apesar disso, o artista tem uma longa história de projetos acústicos. Em 2009, os Dissonicos lançaram o EP “Sem Refrão, Sem Cigarro, Só Talvez”, com músicas despidas da sonoridade punk típica da banda e mais focadas nas histórias narradas pelo personagem protagonista dos outros lançamentos do grupo. Na mesma sessão, ele gravou o b-side “Brinde”, com grande influência de Bob Dylan.

Antes disso, quando ainda tocava na banda Pulso, vieram os primeiros shows acústicos, com versões desplugadas de músicas criadas tendo em mente Fugazi e Bikini Kill. “O “Acústico MTV” do Nirvana trouxe uma imagem alternativa do violão muito importante na minha formação”, relembra Alvaro.

Na verdade, ele nunca ficou preso a apenas uma sonoridade ou uma “carreira”. Nos últimos 20 e poucos anos, já comandou as guitarras e vocais de diversas bandas, compõe para vários grupos, entre eles Dead Fish, já produziu diversos álbuns de rock alternativo, organizou incontáveis shows e esteve à frente da gravadora independente Protons, que marcou época na cena roqueira brasiliense.

“Estou satisfeito com a vida nos bastidores, compondo e produzindo, longe dos holofotes. Sempre gostei de compor, gravar, trabalhar nos arranjos e ver a música chegar onde pode chegar. Demorei para tomar coragem para tocar esse projeto que pode ser ao mesmo tempo despretensioso e altamente gratificante”, confessa Alvaro. E dar nome a esse primeiro trabalho dessa nova fase foi fácil. “O EP chama “Começo” pois já estou gravando outras músicas e espero fazer isso pro resto da vida”.

Ouça o disco abaixo: